Em obras

Por muitos anos, senti falta de um lugar que pudesse chamar de casa. Talvez por ter mudado algumas vezes de cidade e país, o que pode abalar um pouco o senso de pertencimento.

Decidi contratar-me como minha própria corretora imobiliária para correr atrás do prejuízo e descobrir meu lugar no mundo, mas logo vi que não encontraria minha “casa” em uma localidade concreta. Sua geografia era de outra natureza. Então, parti para uma equipe multidisciplinar.

Fui arquiteta, engenheira e pedreira de uma casa interna que comecei a construir pelos sentidos que fui encontrando com o tempo.

Fui também encanadora, bombeira e chaveira para dar conta dos reparos necessários que volta e meia aparecem, pois nenhuma casa escapa de uma torneira pingando de vez em quando – assim como ninguém está imune das inseguranças, dúvidas e tantas outras frustrações que fazem parte da vida (e que podem se revelar valiosos tijolos para sustentar nossas casas).

Fui tomando gosto pela construção e hoje vivo constantemente em obras. Minha casa ganhou alguns puxadinhos à medida em que fui encontrando mais sentidos na vida, sendo minha profissão um dos maiores deles.

Uma profissão que envolve participar e auxiliar nas construções de outras pessoas – às vezes como um dos pedreiros, com consultoria de decoração, reparos de infiltração, etc., entendendo que, independente da função, o importante é estar ali. Estar presente, sob a forma que faça sentido para o mestre de obras (também conhecido como cliente ou paciente) naquele momento.

Uma profissão que me convida, ao participar e contemplar essas construções, a continuar em obras e construir mais alguns puxadinhos no meu quintal. Pois a obra nunca ocorre só de um lado: o terapeuta também se (re)constrói nas dores e delícias de cada terreno visitado. E este é, em minha humilde opinião e experiência, um dos efeitos colaterais mais grandiosos, desafiadores e edificantes desse ofício.