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Sobre a possibilidade de ganhar perdendo (ou perder ganhando)
Às vezes, me pego pensando sobre como teria sido se as coisas tivessem acontecido da maneira como eu insistia em querer, e percebo o tanto que ganhei perdendo.
Quantas expectativas e planejamentos frustrados não acabaram sendo o que eu precisava para entender (como pouco teimosa que sou) que é menos sobre aonde quero chegar, e mais sobre o caminhar.
Sobre a forma como quero lidar com os desvios que modificarão esse caminho. Sobre me abrir para as reformulações de confortáveis “certezas” que tenho topado revisitar. Sobre estar presente nos encontros que farão desse caminho um espaço de afeto e de tanto mais…
Saindo do Ensino Médio, tive a brilhante ideia de iniciar uma graduação em Economia. Graças à vida, seus caminhos tortos e algumas matérias sofridas de contabilidade, tive outra ideia, que se revelaria bem mais certeira: sair da graduação de Economia.
Não saí economista, mas saí, sem dúvida alguma, mais econômica – de certezas, verdades absolutas, planos inflexíveis (e dinheiro, porque o boleto sempre chega).
Não saí com todos os meus dilemas respondidos, mas saí entendendo e topando que a vida e a profissão que escolheria abriria mais perguntas do que respostas.
Não saí expert em resolver equações, mas saí disposta a me relacionar com elas de forma diferente: sendo presença para os questionamentos que contêm e encontrando beleza nos mistérios que carregam.
As palavras não dão conta de tudo
Nem sempre as palavras são suficientes para transmitir o que sentimos. Nem sempre elas dão conta de expressar toda a complexidade, a beleza, as ambiguidades, as contradições e tantos outros aspectos que podem estar contidos numa única experiência.
Felizmente, podemos apelar para a expressão artística em suas mais diversas roupagens. Lembrando que não precisa ser artista para fazer arte. Que não precisa dominar técnicas de desenho para desenhar, ser afinado para cantar, ter boa coordenação motora para dançar (bom lembrete para mim e meus 1,70m de muita altura e falta de jeito), e por aí vai.
Só precisa se entregar e deixar fluir… O “resultado”, a produção artística em si, importa (muito) menos do que o processo que a gerou. Assim é na psicoterapia, e assim pode ser na vida, ainda que nossos tempos sejam marcados por uma corrida desenfreada por resultados. Não que eles também não sejam importantes, mas é válido ter cuidado para não nos tornarmos seus escravos.
Notas sobre um voluntariado nos andes peruanos
Minha viagem ao Peru foi a menos planejada e a mais insana que já fiz até hoje. Saí com uma fome de leão por encontros, e fui mais que saciada pela vida que me presenteou com uma fartura de pessoas e projetos com os quais me deparei numa cidadezinha singelamente emoldurada por uma cordilheira dos Andes de tirar o fôlego (literalmente).
Foram encontros com pessoas tão diferentes e interessantes, inclusive eu mesma, em uma nova versão que estou buscando construir. Com essas pessoas, compartilhei desde sonhos e propósitos até rotinas caóticas e quarto/banheiro/cozinha mais caóticos ainda.
Compartilhar é realmente uma boa palavra para definir essa experiência e o compromisso que firmo a cada dia comigo mesma. Afinal, como li por acaso no avião, “eu só acredito em uma vida vivida coletivamente” (A.C.A).
Colocar o meu trabalho a serviço dessa crença é uma premissa ética que me alimenta enquanto dou meus pulos para entender como concretizar isso da melhor forma. No Peru, foi atendendo mães e crianças em espanhol, num pasto, entre porcos, cavalos e llamas que compunham a paisagem do meu “consultório” improvisado ao ar livre. Dias intensos dos quais me lembro com muito carinho e já com saudades.
Negociando com o medo
Estou frequentando um ateliê para desenhar. Eis que chego lá, embriagada da expectativa do meu momento criativo como se pisasse num spa em Bali, e me deparo com o seguinte convite do professor:
“Gabi, deixe seu traço mais livre, deixe o lápis correr pela folha sem medo de errar”.
Com o espírito de aventureira que teria se estivesse de fato em Bali, fui na dele.
Ô raiva que me deu. Raiva da mão que não ia, ou ia arrependida já querendo voltar.
Ô raiva que me deu da audácia daquele convite, que ousara furtar minha paz de espírito no intervalo de tempo que eu havia separado especialmente para relaxar, sem precisar me haver com grandes dilemas existenciais.
Dilemas existenciais porque, claro, a gente não tem medo de errar só no desenho. A gente tem medo de errar toda hora. Bem, pelo menos eu tenho.
A questão é que, nesse trampo de ter medo de tudo, quantas coisas não deixamos de fazer porque podem dar errado? Quantos erros evitados não nos privam de construir algo importante?
Terminada a aula de desenho, embora meu tão sonhado momento de relaxamento tenha sido apenas um sonho, a raiva passou. O medo de errar, quanto a ele, estamos em negociações – não discutindo sua partida (porque ele também tem sua função), mas sua flexibilidade.
Lições de amor no luto
Aqueles que se vão cedo demais (porque sempre é cedo demais) nos convidam a nos reinventarmos para descobrir novas formas de amar.
De cultivar o amor que fica depois da partida. Amor que, diferente do corpo humano, não tem prazo de validade.
Um amor que tem a saudade como uma amiga paciente, a quem se pode contar vinte vezes a mesma história como se fosse inédita e com quem se pode rir todas as vinte vezes como se fossem a primeira.
Um amor que também banca raivas, ressentimentos, decepções e outros desencontros que fazem parte de qualquer experiência humana, tendo assim espaço para comportar as ambiguidades de uma relação inteira, com suas idas e vindas.
Um amor que, consciente e saudoso dessas idas e vindas, dá conta de dizer que ama mesmo sabendo que não haverá uma resposta “tradicional”, daquelas que se ouve com os ouvidos.
Um amor que se basta (e se celebra) com a escuta de uma resposta mais sentida, que se ouve com o coração.
Um amor que sabe que, citando J.K Rowling (porque nem só de referências clássicas e acadêmicas puro-sangue se vive um ser humano), “aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade”.
Entre o plantio e a colheita, há sempre tempo de maturação
Se você plantasse uma árvore hoje, esperaria encontrá-la florida amanhã?
Parece absurdo quando colocado dessa forma, mas não são poucas as vezes em que cobramos algo semelhante de nós mesmos. Em que insistimos em passar por cima do tempo que existe entre o plantio e a colheita, e que requer paciência. Paciência esta não como ausência de movimento, e sim como passos numa cadência respeitosa do ritmo do processo.
Falando por mim, precisei iniciar (e, muito acertadamente, interromper) uma formação em Economia para entender que eu não era das exatas (rs), demorando mais do que eu esperava e gostaria para ingressar no curso em que eu realmente me formaria.
Minha graduação em Psicologia tampouco foi concluída no tempo esperado – mais uma vez, por circunstâncias da vida, veria os outros “darem frutos” enquanto eu permaneceria.
Nosso tempo de maturação é diferente do tempo do outro. Costuma também ser diferente das expectativas que temos sobre ele. Fazer as pazes com isso me exigiu uma pitada a mais de humildade para reconhecer que as coisas não dependem só de mim: por mais que eu queira, se o solo e o clima não estiverem propícios, não haverá colheita.
Mas isso não precisa ser negativo – cada estação tem suas belezas e seus mistérios, e nem sempre é tempo de colheita. Não precisamos viver em constante primavera, há tempo para tudo.
Você se parece com você?
Outro dia, alguém me perguntou: “você acha que minha foto no WhatsApp se parece comigo?”. A verdade é que não sei se nos parecemos sempre com quem somos. Não sei você, mas tem dias em que sou quase o oposto de mim mesma, e que bom que esses dias existem.
São eles que me lembram que, além de me ser (o que já não é pouca coisa, rs), sou também todas as possibilidades que carrego em mim. Gosto de ter como maior constância a possibilidade de inconstância. Ser mudança, andança, esperança.
E explorando as possibilidades próprias dos seres andantes inconstantes, tenho sido cada vez mais algumas coisas. Tenho sido, também (porque não dá para ser tudo ao mesmo tempo), cada vez menos outras coisas. E, nesse vaivém, tenho parecido cada vez menos — ou talvez cada vez mais — comigo mesma.
Que bom que isso é possível. Que bom que podemos nos constituir a partir de contornos mais maleáveis que nos autorizem metamorfoses e redirecionamentos.
E que bom que, abrindo esse espaço em nós, abrimos espaço também para o outro ser inconstante à sua maneira, possibilitando assim uma relação que nos caiba por inteiros em nossas indefinições.
Pague um, leve dois
Já reparou que estamos sempre querendo ser mais espertos que o tempo? Fazer duas ou três coisas simultaneamente para “ganhar” tempo, como se ele fosse uma mercadoria e estivéssemos sempre à procura de uma promoção “pague um, leve dois”?
Eu mesma sou mestra em querer economizar o “meu” tempo (coitada, alguém avisa?), tentando encontrar brechas nem sei bem para quê. Na época do vestibular, eu estudava até tomando banho: tinha plásticos colados do lado de fora do box para colocar as anotações que queria revisar. Até onde vai o ser humano?
Hoje em dia, apesar de meus banhos serem apenas banhos e não mais sabatinas, ainda me vejo aflita quando estou “perdendo” tempo. Dito isso, suspeito que minha matemática esteja errada. Em que mundo “ganhamos” tempo? Afinal, cada segundo que passa é um segundo a menos.
Talvez a equação aqui não seja tanto quanto ganhamos ou quanto perdemos, e sim de que forma perdemos. Não a quantidade de tempo decorrido e de coisas que conseguimos encaixar nele para tornar o nosso dia mais produtivo, e sim o significado do tempo vivido. Um tempo que pode desafiar a matemática e se tornar eterno quando permeado de sentido.
Em obras
Por muitos anos, senti falta de um lugar que pudesse chamar de casa. Talvez por ter mudado algumas vezes de cidade e país, o que pode abalar um pouco o senso de pertencimento.
Decidi contratar-me como minha própria corretora imobiliária para correr atrás do prejuízo e descobrir meu lugar no mundo, mas logo vi que não encontraria minha “casa” em uma localidade concreta. Sua geografia era de outra natureza. Então, parti para uma equipe multidisciplinar.
Fui arquiteta, engenheira e pedreira de uma casa interna que comecei a construir pelos sentidos que fui encontrando com o tempo.
Fui também encanadora, bombeira e chaveira para dar conta dos reparos necessários que volta e meia aparecem, pois nenhuma casa escapa de uma torneira pingando de vez em quando – assim como ninguém está imune das inseguranças, dúvidas e tantas outras frustrações que fazem parte da vida (e que podem se revelar valiosos tijolos para sustentar nossas casas).
Fui tomando gosto pela construção e hoje vivo constantemente em obras. Minha casa ganhou alguns puxadinhos à medida em que fui encontrando mais sentidos na vida, sendo minha profissão um dos maiores deles.
Uma profissão que envolve participar e auxiliar nas construções de outras pessoas – às vezes como um dos pedreiros, com consultoria de decoração, reparos de infiltração, etc., entendendo que, independente da função, o importante é estar ali. Estar presente, sob a forma que faça sentido para o mestre de obras (também conhecido como cliente ou paciente) naquele momento.
Uma profissão que me convida, ao participar e contemplar essas construções, a continuar em obras e construir mais alguns puxadinhos no meu quintal. Pois a obra nunca ocorre só de um lado: o terapeuta também se (re)constrói nas dores e delícias de cada terreno visitado. E este é, em minha humilde opinião e experiência, um dos efeitos colaterais mais grandiosos, desafiadores e edificantes desse ofício.
Os ensinamentos da saudade
A saudade pode ser uma experiência agridoce. Se sinto saudades, é porque, em algum momento, vivi algo bom. Mas, se sinto saudades, é também porque, por algum motivo, aquilo já não faz parte da minha realidade, temporária ou definitivamente.
Mas a saudade não traz só esse misto de presença e ausência, ela pode trazer também uma importante mensagem. Nas palavras de Rubem Alves, seria a “nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.
Por dizer de algo – um momento, uma relação, uma atividade, etc. – que nos foi importante, a saudade é narradora. E a história que ela carrega pode nos reorientar, como uma bússola interna que nos ajuda a entender o que nos toca, o que nos sensibiliza, o que nos energiza, o que nos conecta com a vida aqui dentro e com a vida lá fora.
É claro que essa bússola está em constante transformação: com o tempo, novas memórias são acrescentadas, ao passo que algumas referências deixam de fazer tanto sentido. Mas esse movimento pode ter a saudade como um sinalizador, principalmente quando nos sentimos perdidos nele e afastados de nós mesmos.
A didática de um lençol amassado
Mel, minha fiel companheira do mundo animal, adora um pedaço de pano, principalmente se estiver impecavelmente passado e dobrado. Não pode ver nada parecido que já se aninha. E não basta se apossar da roupa recém-passada, tem que “cavucar” para dar aquela amassadinha e mostrar que “alguém” passou por lá.
Mal sabia Mel que, hoje, amassar o lençol perfeitamente passado e posar para a foto com uma naturalidade inabalável de quem nunca fez um xixi fora do lugar seria um ato didático.
Um ato didático para sua humilde tutora que havia passado as últimas horas a se lamuriar por planos frustrados, como se os caminhos tivessem de ser linhas retas, e desvios os desvirtuassem. Logo eu, dona dos caminhos tortos.
Ainda bem que tenho Mel para me lembrar, do alto de seus 8 anos vivendo e amassando lençóis, que todo desvio resguarda uma história que pode ser contada. E que toda história pode ser contada de muitas formas, desvelando a cada vez aspectos novos e convidativos para novas narrativas.